Texto: Carlos Cereijo / Fotos: João Mantovani

No meio de galpões na grande São Paulo, repousa uma cápsula do tempo em forma de carro. Há história sob a lataria nua deste Porsche 356 ano 1951. São memórias do seu proprietário, o colecionador e restaurador Maurício Marx, e também dos primórdios da marca alemã. Este é o Porsche mais antigo do Brasil em funcionamento e tem uma relação forte de afeto com Maurício. O pai dele, Flávio Augusto Marx, ampliou uma tradição da família de colecionar carros raros. Maurício, nascido e criado nessa atmosfera, naturalmente seguiu a paixão da família. “Quando completei 18 anos, meu pai disse que eu poderia escolher um carro da coleção para ser meu”, lembra Maurício. O contemplado no meio da vasta garagem foi este Porsche. E não se engane com a aparência surrada do 356, pois o valor histórico dele é para poucos, muito poucos.

Para compreender a raridade deste carro é preciso relembrar a própria história da Porsche. O primeiro protótipo do 356, que foi batizado assim porque era o código do projeto, apareceu em 1948. No ano seguinte, Ferdinand Porsche e seu filho “Ferry” Porsche montaram 52 unidades feitas inteiramente à mão na cidade de Gmund, Áustria. Com cerca de 200 trabalhadores, a pequena oficina não dava conta da crescente demanda. Em 1950, a Porsche aluga um espaço na fábrica de carrocerias Reutter em Zuffenhausen, subúrbio da cidade de Stuttgart, Alemanha. Com isso, a produção sobe para 369 unidades por ano e as exportações para os Estados Unidos começam. Como deu para perceber, eram poucos destes esportivos na época. O que os faz raríssimos hoje.

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Os “pré-A”, até 1952, tinham para-brisa bi-partido e piscas próximos do centro da dianteira até 1953

Até 1955, antes da configuração 356A, os poucos Porsche montados tiveram características únicas que os fizeram ser conhecidos informalmente como pré-A. Umas das principais é o para-brisa bipartido e com borrachas nas unidades até 1952 — depois o vidro era dobrado no meio. Outros sinais da raridade deste Porsche estão nos piscas. Até 1953, os pré-A tinham os piscas dianteiros posicionados mais ao centro do carro. Depois, eles foram alinhados verticalmente logo abaixo dos faróis.

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As luzes traseiras eram diferentes até aquele ano, a de cima retangular e a de baixo redonda. Nos anos seguintes, os pré-A vinham com dois pares de lanternas redondas alinhadas horizontalmente. Agora que você aprendeu a identificar um Porsche 356 pré-A 1951, vá até o Google e pesquise os preços deste carro em leilões. Recobre o fôlego após ver os valores e continue lendo a história de Maurício com este Porsche.

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A relação de carinho de Maurício e o 356 está em todos os detalhes. O Porsche foi presente de seu pai aos 18 anos

RENASCIMENTO

Quando Maurício escolheu o 356 para chamar de seu, ele já sabia que o Porsche estava parado desde os anos 1970. “Tinha um evento da Porsche em Interlagos e eu queria participar. Em menos de uma semana tiramos a mecânica original e colocamos uma de Fusca. Gosto da pintura ao estilo Gulf, por isso o carro ficou azul com a faixa laranja”, conta Maurício.

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Após se divertir com o 356 em outros eventos, Maurício deixou o esportivo um pouco de lado enquanto outros projetos e o trabalho tomavam sua atenção. Maurício é o proprietário da Universo Marx, loja especializada em carros clássicos na capital paulista. “Desde 2000 o Porsche ficou sem uso. Mas eu ficava meio travado ao ver o carro que o meu pai me deu juntando poeira. Foi agora em 2015 que resolvi colocar o 356 para andar e participar de um evento do clube Porsche”, comemora. A missão de trazer o esportivo de volta a vida, porém, seria ainda mais difícil. “Tínhamos só 20 dias para fazer tudo antes do encontro”.

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O trabalho começou ao retirar toda a pintura para deixar o Porsche na lata. Só o “beiço” do capô tem resquícios da pintura Gulf. Mas porque não restaurar a pintura? “Não era o momento de assumir um serviço desses e o Ferdinand Porsche dizia que os seus carros foram feitos para serem guiados e não polidos. Isso é muito a favor do que eu curto”, explica Maurício.

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A equipe de Maurício foi tirando as camadas de tinta, inclusive a original prata, e verificou que não havia ferrugem. Um trabalho minucioso de três dias, pois algumas emendas da carroceria são mais sensíveis por conta do estanho. Algumas peças da Porsche foram trazidas e outros componentes foram usinados. Os faróis de neblina, inclusive a capa Gulf, completam a lista de itens.

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Motor original 1.500 deu lugar a outro boxer Porsche, mas 1.6 e com kit de pistões 1750 do 912

O motor de Fusca saiu e deu lugar a um 1.600 da Porsche que estava na oficina. O quatro cilindros boxer tem carburação maior e ronco ardido. Uma beleza de ouvir acelerar. Suspensão e freios foram refeitos para deixar o 356 pronto para encarar a estrada. Remontar o esportivo exigiu perícia, pois o assoalho podre foi substituído e toda a carroceria precisou ser realinhada. “Tomamos muito cuidado e pesquisamos as medidas para colocar todas as peças nos lugares corretos”, conta Maurício. Segundo ele, um dos itens mais complicados é o para-brisa bi-partido. Como as borrachas originais estavam ressecadas, ele foi obrigado a usar material novo. No entanto, o encaixe não ficava perfeito e foi preciso jogo de cintura para concluir o serviço.

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Foram 3 dias para tirar a pintura e muito cuidado para não danificar as emendas em estanho do 356

O 356 ano 1951 ficou pronto para o evento, mas Maurício nem pode acelerar o esportivo como gostaria. “Por causa da FULLPOWER vou poder sair hoje e aproveitar melhor o Porsche depois que o colocamos para rodar”, sorri Maurício. Enquanto o clássico cortava as curvas de uma estrada vicinal, um ronco metálico e encorpado reverberava pelos barrancos. Pedestres desavisados olhavam curiosos a lata crua do carro. Mal sabiam que estavam na presença não só de história, mas de emoção pura.

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Além de ser um presente do pai, este Porsche tem outras características que emocionam Maurício. Após ver fotos da 1ª Subida de Montanha na Estrada de Santos, que aconteceu em 1958 no litoral paulista, ele notou um 356 pré-A 1951 entre os competidores. “Fui atrás para confirmar se era o meu. Percebi que o carro da foto tem um retalho na carroceria justo onde está a placa traseira. A mesma modificação que o meu tem”, celebra.

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Outra imagem, já dos anos 1960, mostra o piloto Christian “Bino” Heins, mexendo nos freios de um 356 com as mesmas características. Bino era talentoso e tinha um futuro brilhante nas pistas, mas faleceu aos 28 anos de idade num acidente durante as 24 Horas de Le Mans de 1963. “Sei que este Porsche não era destinado para as pistas, mas tenho automobilismo nas veias e fico feliz do carro ter isso na história dele e poder ter pertencido ao Bino”, diz Maurício.

O Porsche mais antigo do Brasil em funcionamento já tem destino certo. “Vou deixá-lo do jeito que está. Quando eu tiver um filho, ele também vai ganhar esse carro aos 18 anos”, prevê o colecionador. Maurício está feliz por poder reviver o que seu pai, que faleceu em 1999, lhe deu de presente. “Me arrepia poder fazer isso. Acho que meu pai deve estar bem orgulhoso”.

FICHA TÉCNICA

Motor > 4 cilindros boxer, 1.6

ALIMENTAÇÃO > carburador, gasolina

Potência > 75 cv (estimados)

Torque > 12,1 kgfm (estimados)

Transmissão > Manual, quatro marchas, tração traseira

Freios > Tambores

Pneus > 5.60-15

Rodas > Aro 15”

Upgrade > motor, carburador, escapamento, suspensão, freios

Empresa > Universo Marx