Texto: Carlos Cereijo / Fotos: João Mantovani

Da copa das árvores, os pássaros fogem sem saber o que está acontecendo. Estampidos de AK47 se misturam com o assovio do turbo. Uma cortina branca cobre a paisagem e provoca neblina na mata atlântica. A calmaria da estrada acabou e a culpa é do Santa Matilde turbo e de seu dono, Alex Cavalcanti. No entanto, antes de chegar nesse nível de maldade, o cupê já tinha um papel importante na vida do empresário paulistano.

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As trajetórias deste Santa Matilde e de Alex se cruzaram há 25 anos. Sua namorada na época — que viria a ser sua esposa, Manoela — tinha como pai um apaixonado por carros. O sogro de Alex ostentava na época este SM preto ano 1986, que ele havia comprado 0 km. O sr. Guerd, homem disciplinado e com ascêndência alemã, mantinha a joia impecável, longe das mãos de qualquer pessoa que não ele. “Eu acho que ele tinha mais ciúmes do Santa Matilde do que da própria filha”, brinca Alex. O genro, depois de ganhar a confiança do sogro, até tentou dar uma voltinha no cupê. “Ele não deixava de maneira nenhuma, nem a minha sogra podia manobrar o carro”, lembra.

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Com o passar dos anos a atração de Alex por esse SM foi crescendo, tanto que ele poderia ter comprado outro, mas fazia questão que fosse o impecável cupê do sogrão. As tentativas de comprar o carro também foram em vão. Ele levou a filha para casar com Alex, mas não entregou o Santa Matilde. Há seis anos, infelizmente, sr. Guerd faleceu.

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O capítulo triste dessa história deu a chance de Alex cuidar do SM. “O cupê ficou como herança para minha esposa, e nós passamos a cuidar dele”, diz Alex. O carro tinha apenas 70 mil km rodados, todos eles sem nenhuma modificação. Depois de dois anos, Alex decidiu colocar um turbo para rodar na rua. “Eu já tive no começo dos anos 1990 uma VW Saveiro turbo, sempre gostei de carro modificado”, lembra o empresário.

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AINDA MELHOR
A receita do Santa Matilde dessa época é a mesma de hoje, mas este ano Alex encostou a caranga na preparadora Caverna, da Zona Norte de São Paulo, para um novo acerto. O objetivo era que esportivo pudesse encarar também as pistas de Arrancada. O trampo ficou sob responsabilidade de Sandoval de Souza, proprietário da oficina. O trabalho que duraria dois meses começou com o desmonte completo do carro.bx-Fullpower

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Segundo Sandoval, a ideia era deixar o máximo de componentes no carro, substituir as peças quebradas e afinar o SM inteiro. “Quando abrimos o motor, havia uma biela quebrada. Trocamos a peça junto com as bronzinas e fizemos uma retífica de virabrequim”, diz o preparador. Os O-ring foram refeitos nos seis cilindros e depois as atenções se voltaram para o comando. “O enquadramento estava original, eu deixei acertado para a configuração ideal”.

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Segundo Sandoval, a bomba de óleo também foi reconfigurada para trabalhar de acordo com a nova proposta. Para que o carro rodasse bem com a nova potência que iria ganhar, a suspensão foi refeita pela Impacto Especiais, oficina especializada da Zona Sul de São Paulo. Sistema de freios foi renovado para segurar os mais de 1.300 kg do cupê. Bancos concha, cinto de quatro pontos e santo antônio já estavam previstos para aumentar a segurança na pista.

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Com isso pronto, Sandoval partiu para o acerto do motor. A taxa de compressão estava em 11,7:1 e foi mudada para 10,4:1, valor mais recomendado para o turbo. “Também recalibrei do zero a injeção FuelTech, assim o carro tem mapas para a pista e para a rua”, explica. O turbo Borg Warner S400 foi mantido na receita e roda com 1 kg de pressão. Com esta fórmula, o Santa Matilde grita e risca o asfalto na maldade. Dá para desenhar uma “ciclovia” de 100 m com os borrachões do esportivo.

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O trabalho de rabiscar a pista fica menos difícil graças ao line lock e ao diferencial 100% blocado. Com o botão verde no volante, Alex trava os pneus dianteiros e limita as rotações do motor a 4.500 rpm. Depois é só afundar o pé direito e curtir os estampidos e o Santa Matilde desaparecer na fumaça. Porém, não é só de vandalismo que vive este SM. Alex agora vai colocar o cupê para disputar provas de arrancada.

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“Não tem muito Santa Matilde nessas condições, ainda mais disputando provas de velocidade”, diz Alex. Já Sandoval diz que as atenções nos últimos tempos estão voltando para o clássico nacional. “A mecânica de Chevrolet Opala é algo até corriqueiro de trabalhar aqui na oficina. O Santa Matilde usa essa base e têm aparecido alguns para preparar aqui”, conta o mecânico.

Alex tem hoje uma garagem decorada de 100 m2 que, além do Santa Matilde, acomoda o restante da coleção. Há Opala, Passat, Variant, Brasília e Fuscas cercados de pôsteres e miniaturas. O empresário reflete quando perguntado se o sogro estaria orgulhoso do que foi feito no SM. “Acho que ele ia ficar meio bravo”, diz em meio a risadas. “Ele gostava do carro original”. Fique tranquilo, Alex. Ver um clássico desfilando por aí com essa trilha sonora forte, destilando marcas de pneu e visual impecável é orgulho para qualquer um.

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FICHA TÉCNICA

Motor > 6 cilindros em linha, 4.1

Alimentação > Injeção eletrônica, etanol, turbo

Potência > 700 cv a 800 cv (estimados)

Torque > 60 kgfm (estimados)

Transmissão > Manual, quatro marchas, tração traseira

Freios > Discos ventilados

Pneus > 195/60 R15 e 205/60 R15

Rodas > Aro 15” x 7” e Aro 15” x 6”

Upgrade > Motor, injeção, suspensão, freios, rodas, line lock

Empresas > Caverna, Impacto Especiais